10 de março de 2018

Sábado de Sol em Balneário Camboriú. Dia perfeito para aquela caminhada pela orla, a Avenida Atlântica linda e plena repousando à margem do Oceano Atlântico. De repente um senhorzinho observando um conhecido empreendimento da cidade, de uma das mais bem conceituadas construtoras da região, comenta que o prédio está inclinado. Bota em dúvida a qualidade de uma obra de milhões de reais, com unidades à venda na casa dos R$10.000.000,00. É possível isso? Tudo bem, até poderia ser, mas cá entre nós, o edifício não está “torto”, nem tem problema estrutural nenhum. A questão é que mexeram com o imaginário popular, despertaram um assunto que em outras ocasiões já esteve em pauta nas rodas de conversa com diferentes empreendimentos, cada um na sua época, sem jamais algum ter ido ao chão. Agora a bola da vez desse tipo de comentário é esse edifício.

Sabe o que lembra isso? Lendas urbanas. Aquelas histórias sinistras espalhadas pelas pessoas com ar de folclore. E na terra dos maiores arranha-céus da América do Sul, a lenda urbana preferida é a do edifício torto! Volta e meia ela aparece. Outro dia circulou tanto via WhattsApp imagens da água da piscina de um apartamento transbordando durante uma  tempestade que o assunto foi parar no Fantástico, o clássico programa de TV preferido dos brasileiros nas noites de domingo há mais de 40 anos.  Mesmo que engenheiros tenham dado explicações técnicas convincentes, que a reportagem tenha apresentado argumentos para tirar da cabeça de todos a idéia de que poderia haver problemas estruturais na edificação, alimentaram a lenda em rede nacional. E o povo adora uma lenda...

Pois bem, façamos um teste imaginário simples pra desmistificar isso, especificamente nesse caso. Guardadas as proporções a mecânica é mesma: se você encher um copo plástico com água e ficar dando pequenos petelecos nele continuamente, sempre com a mesma força, em um intervalo um pouco mais rápido que o compasso do seu coração, o que vai acontecer? Vai demorar, mas vai chegar em um ponto que a água vai transbordar. Você não aumentou a força que está usando sobre o copo, ele não balançou mais do que no primeiro peteleco, mas a água sim.  É assim que ocorre lá também. Além da oscilação normal do prédio, prevista na a obra, a água começa a usar a força gerada por ela mesma e passa se agitar cada vez mais, até que transborda. Quem já levou uma criança brincar em um parque sabe bem como é isso. Se cada vez que você empurrar um balanço usar exatamente a mesma força que usou quando o balanço estava inerte, o balanço vai subir cada vez mais alto! É mais ou menos o que acontece com a água lá.

Então, meus amigos, podem encerrar logo a discussão a próxima vez que estiverem na calçada, na beira da praia ou na mesa de um bar e alguém falar sobre o Millenium. Por mais que no vídeo que correu o Brasil a moradora tenha dito que é assustador ver a água da piscina agitada daquela forma durante uma tempestade, ele cair ou simplesmente estar “torto”, é quase tão provável quanto você encontrar o Saci Pererê tomando uma água de côco, ali naquele quiosque em frente ao prédio. É pura lenda.